17
dez
08

Visita à vila do chocolatão – Relato

Hoje eu, a Carla e a Camila (amigonas apaixonadas por Cristo) fomos à vila do chocolatão. A idéia surgiu quando falávamos do modo como levamos Jesus às pessoas, e que às vezes nos limitamos numa evangelização meio que roteirizada e paramos de olhar em volta ou sonhar com outras formas de levar esse amor. Logo depois decidimos ir conhecer realidades novas para ter novas idéias, achar um objetivo e agir, a idéia inicial era uma viagem… Mas logo a Carla genialmente nos disse que em Porto Alegre mesmo tem muita coisa a se ver.

Uma professora(de psicologia) da Carla está pensando em desenvolver um projeto nessa vila e já tinha os contatos para entrar lá, foi assim que conseguimos essa visita. Entramos e fomos direto à “sede”, nos apresentamos e conversamos com o líder da comunidade(já não tem muita esperança de que alguma coisa mude por lá). Ele nos deu as informações básicas… Que ali moram em maioria catadores de lixo, grande maioria é ex-presidiário e às vezes alguns foragidos passam um tempo por ali. Por tudo isso ele não tem exatamente o número de moradores, mas que são aproximadamente 200 família e que a vila é divida em duas partes, uma mais organizada e outra em que nada funciona (a parte que visitamos). Nessa parte encontramos três banheiros, completamente destruídos, para todas as famílias e lixo. Tudo por lá é lixo… lixo é lixo, mas lixo também é o sustento…

Ficamos para ver o ensaio da encenação de natal que um estudante de artes cênicas da UFRGS, voluntário por lá, tem organizado. E em minutos me vi rodeada por crianças, e a minha dificuldade com elas não conseguiu ganhar espaço quando se deparou com a carência que cada uma delas carregava. O esforço pra conseguir ficar de mãos dadas, pra conseguir subir no colo e o olhar triste quando os braços estavam cansados e elas voltavam para o chão foram tomando lugar de qualquer pensamento que tenha chegado pré-estabelecido. E logo aquele pensamento que me disse no inicio “elas estão imundas” tinha desaparecido e ao mesmo tempo que eu tentava olhar pra quantas eu pudesse também tentava controla-las pra que eu pelo menos ficasse de pé e tinha uma grande vontade de chorar. Como elas poderiam se sentir tão felizes pela nossa presença? Não tínhamos presente, ou brincadeiras… até aquele momento estávamos isoladas de tudo, observando de fora aquele outro mundo.

Na espontaneidade das crianças algumas coisas iam ficando claras e nos chocando mais a cada minuto. A média de idade por ali era 6 anos e elas narravam a prisão de um conhecido, ou alguém que ficou doente ou morreu, ou algo relacionado a sexualidade(de diversas formas). Todas as reações delas eram com agressões, do mesmo modo que brincavam passavam a se agredir, estavam constantemente se defendendo de qualquer aproximação física (a não ser que fosse a nossa). Ouvir de uma menina de 6 anos que nenhum homem presta pq homem beija na boca e ela detesta todos eles, após tentarmos apaziguar a pequena briga dela com um menino da mesma idade dizendo: “vcs são amigos!” foi como um tapa.

Antes que ficasse escuro começamos a caminhar para fora da vila com as crianças que nos seguiam e pediam para ir junto. Quando conseguimos chegar até a rua, a hipótese de um trabalho psicológico foi adiada para quando se encontrar as necessidade mais básicas supridas. E vendo que toda a organização social que conhecemos não existe por lá, levamos alguns minutos até concluir que as primeiras coisas que podem ser feitas são as mais simples que poderíamos imaginar… Que se conseguíssemos que as crianças usassem sapatos, por exemplo, seria uma grande conquista que diminuiria a mortalidade.

Eu poderia juntar tudo e fazer uma análise das idéias sociais que já defendi e da visão atual, mas além de chato, com certeza nada seria tão simples e nem falaria tanto como apenas relatar o que vi e senti.

Ps.: Claro que eu não tive como tirar fotos

* blogmetanoia.blogspot.com esse é o Blog do Caio (um amigo que está morando aqui em POA).  Muito boa abordagem de alguns temas polêmicos.

Glossário: vila = favela (em Porto Alegre pelo menos)

Tânia


2 Respostas para “Visita à vila do chocolatão – Relato”


  1. 1 cainanan
    dezembro 17, 2008 às 7:53 pm

    Uau!!!
    A gente fica só no nosso quadrado e não dá conta de que tem muita gente precisando de nós por aí…
    Parabéns pelo post! Bjao!

  2. dezembro 18, 2008 às 2:25 pm

    Olá, Tânia!

    Valeu pela indicação do meu blogue!!!

    Ah, eu também fiz um recentemente aqui no WordPress: blogmetanoia.wordpress.com.

    Pax et Bene!


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